sábado, 1 de janeiro de 2011

Por quantas estradas deve um homem caminhar?


Bob Dylan

Blowing in the wind [1]

"How many roads must a man walk down, before you call him a man?"

"Por quantas estradas um homem deve caminhar, antes de ser chamado de homem?"

                Outro dia ouvi esta música por acaso, depois de um bom tempo sem escutá-la. A reação quase instintiva foi pensar: Esses versos não morrem nunca? Parei e tentei ouví-la, não como quem ouve música em shopping e cantarola por puro condicionamento, mas sim como quem ouve um segredo de um velho amigo sábio. Me vi questionando sobre as estradas que havia caminhado até o momento e para onde elas tinham me levado ou ainda podiam me levar. Uma reação em cadeia fruto de uma das músicas mais marcantes dos anos 60. Com uma melodia simples e sem firulas, Bob Dylan passa de maneira casual, uma mensagem mais profunda e enigmática do que seus acordes podem sugerir. Ela que sem preliminares, já se inicia com uma perguntinha um tanto capciosa, sobre uma jornada que começa com aquele choro da estréia e se estende até a última curva da nossa estrada de terra batida, chamada vida. Me questiono: o que o "musico filosófico", Dylan, propõe? O que torna esta música do século passado ainda tão atual?


                Hoje, passados mais de quarenta anos, seus versos me remetem a uma passagem. Um processo de amadurecimento do caminhar sinuoso pelo acostamento. Daquele andar infantil,  chutando o chão de barro da rua com a ponta dos dedos, só para ver levantar uma pequena nuvem de poeira na estrada esburacada. Nesta época, com a mente curiosa de criança, sonhava ludicamente com o horizonte além da próxima esquina. Não me preocupava qual caminho tomar para ir comprar o pão do jantar, simplesmente pegava o dinheiro e seguia correndo até a padaria, o mais rápido que podia. Nesse tempo as estradas eram curtas, sem desvios, encruzilhadas ou atalhos, e até as curvas eram como pequenas retas. O prazer maior era curtir o percurso que passava borrado pelo canto do olho e me desafiar a pular as poças de lama cada vez maiores. Antes, chegar em casa com a sacola de pão nas mãos significava o fim da diversão, não o peso da vitória ou da conquista suada e planejada. A graça era não ter uma meta, algo  que amarrasse nossa imaginação ao chão, assim a maior alegria era não chegar, era simplesmente correr indefinidamente. 

               Mas então o que aconteceu? Passamos a idolatrar a chegada mais do que a corrida, sendo assim, não se perde a vontade de correr? Trocamos o prazer de apreciar o processo em seu desenvolvimento com o de apreciar a meta alcançada, o que nos parece o mais maduro a ser feito. Como quem abre um guarda-chuva ao menor sinal de vento, num automatismo quase industrial. Crescemos e esquecemos que algumas coisas são apenas água em movimento. Ainda lembra disto? Lembra da sensação da chuva fina no rosto? Ou talvez, os anos de guarda-chuvas precoces tenham nos anestesiado, para o fato de a chuva ser uma das poucas coisas concretas que o céu nos envia... Mas me pergunto, o que deixamos cair no meio da estrada até aqui? Teimamos em adotar a política dos "fins que justificam os meios" ou "chuvas por guarda-chuvas" em nossa caminhada: "Dane-se os meios, o que importa somente é voar mais alto que todos, perto do sol com minhas asas de cera..." Mas se o percurso for longo demais e não tivermos a sensação de que a chegada pagará o custo de anos de corrida por obrigação? E agora, José? 

                Imaginemos o seguinte cenário, você trabalhou a vida inteira como bancário concursado e estabilizado, emprego que lutou muito para obter, com o salário sustentou-se e aos filhos com dignidade e honestidade. Agora, depois de anos de trabalho você finalmente se aposentará, o que, aliás, sempre foi seu objetivo, pois sempre trabalhou contando os dias para isto.  Sua vida inteira de trabalho foi dedicada a uma atividade que nunca despertou seu interesse por completo. Na verdade você sonhava em estudar gastronomia e ser dono de seu próprio restaurante de massas, mas nunca teve fé em si mesmo para tanto. 
Búfalos em "Dança com Lobos"
Na dúvida, escolheu a estrada asfaltada, por saber onde te levaria a arriscar tomar um atalho por uma estradinha de terra, convidativa porém incógnita. Normal, afinal é o senso comum. Guiamo-nos como uma manada de búfalos caçada por índios em direção ao penhasco. Não soa melhor do que ser um novilho desgarrado que caminhará sozinho por pradarias desconhecidas? Mas e quando você atinge seu objetivo e olha para trás, tentando encontrar as marcas deixadas pelos seus pés no asfalto? Seremos velhinhos sentados em cadeiras de balanço no terraço, vivendo o passado, pois o futuro que construímos não é nosso, foi para outros viverem. Sonharemos com a "aurora de nossas vidas, com nossa infância querida que os anos não trazem mais." [2], por termos edificado a vida nas crenças de outros búfalos, ofertadas a nós quando ainda corríamos descalços na lama. Talvez soe infantil, mas adiar o prazer diário de viver justo para a época em que deveríamos estar satisfeitos com tudo o que vivemos não parece contraditório para você?

                 Então, o que a rodovia de asfalto nos proporciona? Segurança, estabilidade, alívio, sossego, paz? Mas não há ilusão, há física: só existe reação quando há ação. Qual o custo do pedágio? Monotonia, estafa, apatia, conformismo, uma falta literal de tesão pelo risco? As vezes o óbvio é o mais difícil de se entender, pois não é algo que envolva percepção e sim decisão.
Show de Iron Maiden
Não seria por isso que "nossas" músicas nos tocam tanto? Que idolatramos os ídolos em que projetamos nossos desejos? O que faz uma multidão inteira urrar em uníssono em um show de Iron Maiden se não um sentimento de liberdade reprimida? Pagamos pequenas fortunas para nossos ídolos construídos, nos tornarem livres por algumas horas. Será que em algum canto obscuro da mente, o fã que delira, não se torna o artista em questão? Será que quase escondido de si mesmo, não mora um desejo reprimido de se tornar aquilo que se idolatra? E bilhões são gastos, com livros que nos fazem sonhar, filmes que nos despertam as sensações que gostaríamos de ter, músicas que nos afastam de uma realidade e nos jogam em outra, numa espécie de arrependimento coletivo pela curva na esquina errada. Somos escapistas de nós mesmos, de nossas próprias vidas. Fingimos saber o motivo de tudo, a razão das coisas, como se houvessem apenas receitas de bolo prontas para cada detalhe da vida. Respostas prontas, filosofia fast-food, tipo macarrão instantâneo, três minutos e você tem uma tonelada de máximas de vida re-hidratadas e prontas para consumo... Tudo passado de geração em geração, mas quando a hora se aproxima, transbordam-se em depressões, crises de meia idade, de terceira idade, de todas as idades...

                Bom, qual caminho escolher então? Deveríamos adotar a filosofia de vida dos meninos perdidos? Alimentar nossas síndromes de Peter Pan e seguir nossos impulsos e desejos apenas? Seria como escolher sempre a rota mais divertida, mas para objetivo algum. Como um barco de velas quebradas que rodopia perdido no meio do oceano. Ou aquele garoto que só queria correr ao comprar pão. Mas, como búfalos, fingir que não há penhasco à frente não nos fará voar quando o chão se for sob nossos pés... E acredite, esse fingir é mais adulto do que qualquer ato infantil, pois a inocência só protege seus praticantes. Me pergunto se é plausível encontrar um ponto de equilíbrio nisto tudo. Onde possamos correr até nossas metas, mas com um sorriso sutil nos lábios. É possível atravessar as estradas tomando ora atalhos desconhecidos e prazerosos, ora o asfalto rápido, até onde se quer chegar? Num misto de ousadia e perseverança incomuns? Para que ao final, tenhamos nos tornado homens de verdade, cheios de calos nos pés, mas com a cabeça erguida e sem marcas de correntes nos punhos? Talvez Dylan tenha descoberto a resposta e nos iludiu, camuflando-a diante de nossos olhos. Seu refrão responde com aquele ar reticente: "a resposta meu amigo, está soprando no vento...". Quem sabe só precisemos levantar mais um pouco de poeira da estrada para absorver essa bendita metáfora... O que me diz?

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